Sacrificando a Rainha: por que a Alpargatas está vendendo suas marcas?

Ao vender as marcas Topper e Rainha, a intenção da Alpargatas é concentrar esforços em unidades de negócios mais rentáveis; a de Carlos Wizard é expandir seus investimentos em bem estar.

Em uma transação concretizada por R$ 48,7 milhões, a Alpargatas anunciou nesta terça-feira, 3 de novembro, um acordo para vender suas marcas de calçados esportivos Rainha e Topper para o grupo de investidores Sforza, liderado por Carlos Wizard.

A transação compreende venda da totalidade da Topper no Brasil e da Rainha no Brasil e no mundo, e venda de parte das operações da marca Topper na Argentina e no mundo, com exceção dos Estados Unidos e da China .

 

 

 

No dia do acordo a Alpargatas encaminhou um comunicado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) explicando a transação:

“A transação envolve 100% das operações da Topper no Brasil e da Rainha no Brasil e no mundo, além de 20% das operações da marca Topper na Argentina e no mundo, com exceção de Estados Unidos e China. Nestes dois países, os compradores terão direito de uso da marca por quinze anos. O valor da transação foi confirmado em R$ 48,7 milhões, divididos em duas parcelas.”

“No Brasil, as fábricas não fazem parte da transação, mas continuarão produzindo calçados Topper e Rainha para os compradores por um período de até 24 meses, período em que gradualmente aumentaremos a produção local de Mizuno e a produção de calçados “soul collection” de Havaianas, mitigando tanto a necessidade de expandir capacidade quanto a ociosidade da produção.”

A marca Topper ocupa posição de liderança no mercado de artigos esportivos na Argentina e no Brasil; a marca Rainha vem se colocando há 10 anos como marca “Top of Mind” no Brasil.

 

Mr. Wizard, the wizard

Carlos Wizard, o comprador, é o fundador da rede de franquias Wizard e do grupo Multi (que inclui as escolas de idiomas Wizard, Yázigi, Skills e Apls, além da SOS Computadores e Microlins). O grupo Multi foi vendido para a rede de ensino britânica Pearson no final de 2013, por R$ 1,9 bilhão. Oito meses depois, Carlos Wizard Martins comprou a cadeia varejista de produtos saudáveis Mundo Verde, rede de lojas de produtos naturais.

 

A intenção estratégica da Alpargatas

A intenção alegada pela Alpargatas é a de não perder o foco. O comunicado à CVM explica que o objetivo da operação é  permitir que a empresa se concentre em negócios mais estratégicos, sendo que vinha procurando interessados nas duas marcas havia algum tempo.

No comunicado ao mercado, a Alpargatas afirma que a venda das marcas permitirá à empresa concentrar esforços no próprio crescimento, reduzir a necessidade de investimentos industriais e racionalizar as despesas administrativas, melhorando as margens e o caixa da companhia.

“Nossas rotas de desenvolvimento estão baseadas no crescimento de volume e rentabilidade de sandálias no Brasil, na consolidação da marca Havaianas para novos mercados, categorias e também no varejo de lojas exclusivas, no aumento de rentabilidade e expansão de Mizuno no Brasil e na América Latina e no desenvolvimento e consolidação da Osklen no segmento feminino e no exterior. Esses são os negócios que receberão ‘120%’ dos recursos disponíveis no Brasil”.

No início de outubro de 2015 a Camargo Correa, que detém 44,12% da Alpargatas, havia manifestado a intenção de se desfazer de parte de seus negócios. Em comunicado à CVM, informou que “em  virtude  do  interesse  sinalizado  por  investidores potencialmente  interessados”  estava a  analisar oportunidades estratégicas relacionadas ao seu investimento na companhia, o que   poderia envolver a alteração na composição do controle acionário. Da mesma forma, vinha sendo comentada há algum tempo a possibilidade de que a Alpargatas se desfizesse de algumas marcas para poder concentrar energia em outras como Havaianas, Mizuno e Osklen.

 


Hora de sair de casa

No mesmo documento que encaminhou à CVM, o presidente da Alpargatas Márcio Utsch afirma que depois de passarem por um processo de turnaround bem sucedido, os negócios de Topper e Rainha atingiram seus limites de expansão dentro da estrutura da Alpargatas. Teriam chegado a um patamar no qual, para tornar efetivo seu potencial de prosperar, demandam modelos de negócios que sejam mais adequados às necessidades das marcas.

 “Após passarem por um processo de ajuste bem-sucedido, os negócios de Topper e Rainha atingiram seus limites de expansão dentro da estrutura da Alpargatas, porém alcançaram um patamar em que apresentam grande potencial para prosperar, desde que com modelos de negócios mais adequados às necessidades das marcas”.

 

Costurando acordos e calçados

A engenharia da operação se baseia em uma reorganização societária pela qual a Alpargatas separará, de suas operações no Brasil, a unidade de negócios responsável pelas atividades vinculadas às marcas Topper e Rainha em uma nova empresa, denominada NewCo Brasil.

Na operação brasileira a Alpargatas continuará responsável pela industralização dos calçados das marcas Topper e Rainha por um prazo de até 24 meses e licenciará a marca Topper para os Estados Unidos e China, por um período de até 15 anos. Nesses 24 meses a Alpargatas deverá aumentar, como referiu no comunicado oficial, a produção local dos itens da marca Mizuno e dos calçados “soul collection” de Havaianas.

Os negócios na Argentina terão seu preço calculado pela aplicação de um múltiplo de 6,5 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, tributos, depreciação e amortização da operação em 31 de dezembro, ajustado pelo valor da dívida líquida na data do fechamento da transação.

Os ativos industriais das marcas não foram incluídos no acordo referente ao Brasil; na Argentina eles compuseram a transação. O acordo estabelece que a Alpargatas continuará a fabricar os calçados da Rainha e da Topper no Brasil por um período de dois anos.

Os investidores que estão adquirindo o controle pagarão à Alpargatas na data de fechamento da transação, em troca da aquisição de 100% do capital da NewCo Brasil, o valor de R$ 48,7 milhões, sujeito a eventuais ajustes usuais em transações deste tipo. Os compradores também pagarão à Alpargatas, a partir do terceiro ano do licenciamento e até o término do contrato, royalties pelo uso da marca Topper nos Estados Unidos e na China.

Quanto à operação na Argentina, a Alpargatas comunica ainda que, tendo como pré-condição o fechamento da Operação Brasil, os compradores comprarão 20% do capital social de uma nova companhia, a ser constituída pela Alpargatas na Argentina (NewCo Argentina), que será responsável pelos negócios relacionados com a marca Topper na Argentina e no mundo, com exceção de Brasil, Estados Unidos e China:

“Os compradores pagarão à Alpargatas o equivalente a 20% do valor da NewCo Argentina, que será calculado com base na aplicação do múltiplo de 6,5 vezes sobre o Ebitda efetivo de 2015 da NewCo Argentina – a ser apurado após a respectiva reorganização societária da Alpargatas na Argentina – e estará sujeito a determinados ajustes usuais em transações desse tipo”.

 

Dados anuais desde 2010 mostram uma geração de lucros que não acompanhou a evolução das receitas, tendência declinante das margens de lucratividade e um volume de despesas financeiras que superou o de receitas financeiras em 2014.

 

2014 não foi um ano fácil

De fato, o ano de 2014 não foi fácil. Informações referentes ao último trimestre do ano passado dão conta de que o volume de calçados esportivos vendidos no Brasil pela empresa foi 13,5% inferior ao do mesmo período do ano anterior; e que os produtos Topper e Rainha haviam passado por uma retirada de produtos de seu portfolio, apresentando uma diminuição de volume na comparação entre os dois períodos.

No final do ano passado, a intenção da Alpargatas para a marca Topper era a de fortalecer sua identidade de marca na América Latina oferecendo produtos para segmentos como o de futebol, running e tênis; adequar os pontos de venda existentes; melhorar a comunicação dos produtos e desenvolver distribuidores em outros países da América do Sul; e incrementar a linha de calçados casuais. Os planos para a marca Rainha consideravam a necessidade de aumentar investimentos em pontos de venda, em mídia e em relações esportivas. Neste ano o presidente da empresa declarou que seria mantida a orientação de investir em inovação e marketing para evitar a competição por preço (“muito nefasta”).

 

Driblando 2015

Declarações feitas no ano passado pela alta administração da Alpargatas sobre as expectativas para 2015 não destoavam das anunciadas por outros agentes: um período de incerteza afetado por reajustes de energia e combustíveis a drenar recursos das famílias, combinados com inflação, juros altos e menos compras.

Sobre o clima para a tomada de decisões de investimento: falta de previsibilidade, traduzida na ausência de certeza sobre quando viria o crescimento econômico. A Alpargatas havia inaugurado em 2013 uma fábrica em Montes Claros (MG), o que aumentou sua capacidade de produção em cem milhões de pares de calçados por ano; a maturação desse investimento depende, entre outras coisas, das condições que  afetarão suas vendas e o controle das despesas ao longo dos anos seguintes.

O ano de 2015 começou para a Alpargatas com a orientação de cortar custos, especialmente nas operações cujas matérias-primas são cotadas em moeda estrangeira; além disso, ampliar o investimento em marcas que pudessem ganhar mercado no exterior, aproveitando o dólar valorizado. Em maio de 2015 o presidente da empresa afirmava que o mercado continuava fraco e pessimista.

Os relatórios da Alpargatas referentes ao segundo trimestre de 2015 informam que no período foram vendidos menos 300 mil pares de calçados do que no mesmo período do ano anterior, sendo que a demanda mais fraca teria motivado redução do volume físico vendido das marcas Mizuno, Topper e Rainha.

 

O importante é se sentir bem

O investidor Carlos Wizard declara no comunicado que as aquisições da Topper e Rainha são estratégicas em razão da liderança que possuem no mercado brasileiro. Ele afirma que o grupo de investidores tem buscado negócios rentáveis e com elevado potencial de crescimento, mas que além disso gerem bem estar.

Ainda segundo ele, foi essa visão de mercado que levou à aquisição da rede Mundo Verde, fornecedora de produtos naturais cujo conceito de negócio prega um estilo de vida saudável e equilibrado. A meta da rede para 2018 é de alcançar 650 lojas e obter um faturamento de 1 bilhão de reais. O segmento esportivo, como se vê, faz parte da estratégia global de investimento e novas transações semelhantes poderão acontecer.

 

Palavras-chave: Alpargatas, Rainha, Topper, Wizard, turnaround, marcas.

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José Luís Neves é profissional da área de planejamento e finanças. Administrador  e economista, tem mestrado em Administração pela USP. Possui mais de 25 anos de experiência em empresas de consultoria e serviços como gestor de finanças, coordenando processos de controladoria, financeiro e contábil. Reside em São Paulo, SP.

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