11 vídeos inspiradores sobre escolhas, valores e os rumos da (sua) carreira

Sempre tive curiosidade em entender o que determina a propagação de palavras e frases que as pessoas repetem com freqüência e que se desgastam pelo uso, depois de terem se transformado em modismos.

Quando o desgaste acontece, é porque as ideias perderam força e novidade; até que isso ocorra, porém, a palavra, expressão ou conceito têm seu ciclo de vida. As construções verbais encerram verdades mais ou menos aceitas; e mesmo depois de abandonadas, às vezes elas ressuscitam. Assimilados, criticados ou desprezados, os conceitos ficam.

Conheço pessoas que abusam. Emendam frases de efeito e as combinam de uma forma tal que o conjunto chega a se parecer com um discurso estruturado, mas na verdade é uma colagem de conceitos. Tive um colega que era conhecido por fazer isso com tal freqüência que transformava quase tudo o que dizia em algo artificial. Ele era rápido em reconhecer a semelhança entre uma situação e um provérbio qualquer, mas às vezes uma apresentação conduzida por ele praticamente se resumia a uma coleção de bordões meio sem graça, obviedades e sorrisos amarelos da plateia.

Talvez seja o caso de olhar para o lado bom. Já que conviver com termos, expressões e frases assim é mais ou menos inevitável, pus-me a pensar na diferença de qualidade entre eles, em traços distintivos e em algum emprego que pudesse ajudar a relembrar ou tornar mais concreto o sentido para quem ouve.

Percebi que o uso que se faz de um conceito é algo que foge ao controle do autor; que algumas das ideias repetidas à exaustão têm lá seus méritos e às vezes uma origem interessante; e que, a despeito da sensação de tédio que podem despertar, embutem noções que merecem consideração.

Os vídeos indicados a seguir têm a ver com expressões ouvidas freqüentemente e ilustram conceitos que considero úteis. São sobre definições. São sobre escolhas que acabamos fazendo conscientemente ou não; ativamente ou não; planejando-as ou nos omitindo; assumindo o papel de protagonistas ou deixando que os acontecimentos decidam por nós.

“O talento ganha jogos, mas o trabalho em equipe e a inteligência ganham campeonatos.”

A frase é atribuída a Michael Jordan e está presente em diversos livros sobre liderança, gestão de equipes, psicologia esportiva e vendas. Já a ouvi muitas vezes, com pequenas variações.

Embora exista uma certa concordância geral quanto à importância de saber trabalhar em equipe, são muitas as visões sobre como consegui-lo e mesmo sobre no que exatamente consiste. Uma delas é conhecida e está no filme Um Domingo Qualquer, de 1999. Na cena do vídeo a seguir, o personagem de Al Pacino fornece a sua para explicar o que significa o sentido de união e a diferença que um ou outro pequeno detalhe pode fazer.

“Os centímetros de que precisamos estão à nossa volta.”

 

” Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” / “Aquilo que não me destrói me fortalece.”

Já ouvi versões curtas dessas frases serem atribuídas a caminhoneiros, mas na verdade elas são do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. A declaração sobre o abismo é do livro Para Além do Bem e do Mal e expressa a ideia dos limites entre opostos: quem se define pela oposição a algo também permite que este algo o defina, o que pode gerar uma espécie de identidade. Ao lidar com um oponente, convém atentar para não fazer uso dos expedientes ilegais, irracionais ou corrompidos que ele utiliza.

A ideia está presente, por exemplo, no filme Batman, o Cavaleiro das Trevas, em que as atitudes do herói e o discurso do vilão mostram que a linha de separação entre os dois é um tanto permeável. Os posters do filme também exploravam os conceitos de dualidade e contradição.

 

 

 

 

 

“Eu não quero matar você! O que eu faria sem você?”

 

A outra frase, sobre nos fortalecer com o que não nos destrói, é do livro O Crepúsculo dos Ídolos. Ela reaparece na obra Ecce Homo, também de Nietzsche. Refere-se ao fato de que sobreviver a adversidades nos torna mais aptos a lidar com dificuldades e nos adaptar, e que mesmo eventos traumáticos são importantes na formação da personalidade. Nietzsche foi bem claro a respeito: para ele, uma pessoa de sucesso é aquela capaz se aproveitar de incidentes negativos, transformando-os em vantagens.

Muitas ideias de Nietzsche eram controversas em sua época e o são hoje; é um dos filósofos mais importantes da história, e parte do sucesso de suas obras tem a ver com seu estilo aforístico. Provavelmente ele não veria em uma pessoa comoAbraham Lincoln a melhor tradução de sua visão de mundo, mas admitiria que na trajetória de Lincoln foi firme e decisiva a determinação de não se deixar abater por adversidades.

 

 

Uma postura parecida está presente na trajetória do ex-governador da California, marcada pelo enfrentamento de notável quantidade de dificuldades.

 

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“A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.”

Muitas vezes atribuída a Abraham Lincoln e a Peter Drucker,  na verdade uma das primeiras versões desta frase aparece no livro do engenheiro e inventor húngaro-britânico Dennis Gabor  Inventing the Future, de 1963. Posteriormente ele ganharia um Prêmio Nobel por seus estudos no campo da holografia.

A frase também foi atribuída, depois, a outro ganhador do Nobel, Ilya Prigogine. Ironicamente, em 1982 fez parte de um anúncio criado para revistas pela empresa de jogos Atari, que não soube criar um futuro para si própria. Em 1986 o livro de John Williamson The Leader Manager informava que Peter Drucker repetia em suas aulas a declaração com certa freqüência. Desde então, está presente em diversas coletâneas, citações, posters, murais e camisetas.

No campo dos negócios a ideia, otimista, é que o empreendedor deve assumir o papel de protagonista em seu ramo, em suas relações com colaboradores e outros agentes do mercado, assim como nas suas relações com a sociedade. A noção de ter uma visão de futuro inspiradora que sirva como desafio capaz de moldar o próprio rumo se associa à de reunir recursos, orientar pessoas, controlar resultados e tomar decisões compatíveis com a visão.

A ideia de assumir o próprio destino está presente, por exemplo, em filmes como o drama biográfico Invictus. A cena a seguir faz referência ao poema de William Ernest Henley que serviu de base para o nome do filme e inspirou o presidente sul-africano Nelson Mandela durante os 27 anos que passou na prisão.

 

“Não importa se o portão é estreito.”

 

 

“Ninguém pode fazer você se sentir inferior sem o seu consentimento.”

Esta, que é uma das mais populares frases sobre auto-estima, foi escrita porEleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos  de 1933 a 1945. Está presente em sua autobiografia This Is My Story e teria surgido na forma escrita pela primeira vez na revista Reader’s Digest em setembro de 1940.

Ao que se sabe, a frase teve origem em um acontecimento de 1935: o Ministro do Trabalho do governo Roosevelt foi convidado para fazer um discurso na Universidade de Berkeley, no dia do aniversário da escola. Um dos organizadores do evento se declarou insatisfeito com a escolha do orador por ele não ser, a seu ver, um político suficientemente importante.

Eleanor Roosevelt se recusou a continuar participando do evento e alguns dias depois lhe perguntaram em uma entrevista coletiva se entendia que o ministro havia sido humilhado. Ela respondeu que “a humilhação é o esforço de uma pessoa que se sente superior, de fazer outra pessoa se sentir inferior. Para isso, ele tem de encontrar alguém a quem possa fazer inferior”.

Nesta cena do filme  À Procura da Felicidade, o personagem de Will Smith explica ao filho que não deve desistir de seus sonhos em razão da imposição ou de limitações criadas por outra pessoa.

 

O filme O Diabo Veste Prada mostra comportamentos que sancionam uma relação de dominação e também formas de enfrentá-la.

 

Ainda no que se refere a auto-estima, permanecer imperturbável diante do assédio é uma competência especial. Boa parte da série Todo Mundo Odeia o Crisse baseia nesta visão, em cenas como a seguinte:

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 “Se a única coisa que você tem é um martelo, você tende a ver todo problema como um prego.”

A citação já foi atribuída a diversas pessoas, entre elas Buda e Mark Twain. É um provérbio popular de autor desconhecido. O primeiro registro escrito conhecido de uma versão dela data de um periódico inglês de 1868 chamado Once a Week, segundo o qual uma criança que ganha um martelo sai golpeando tudo até que lhe ensinem um bom uso da ferramenta. A intenção  é destacar a inclinação a adaptar a visão que se tem dos problemas às ferramentas disponíveis, mesmo quando isso significa contrariar a realidade.

A frase aparece em trabalhos como os do cientista Abraham Kaplan, em um artigo sobre metodologia comportamental de 1963, ou de Abraham Maslow, o psicologo norte-americano que propôs a hierarquia de necessidades à qual costumamos associar o desenho de uma pirâmide; foi ele também quem criou os T-Groups, na década de 1940. Provavelmente foi o autor que mais contribuiu para que a citação fosse difundida.

Convém aprender com os erros. Às vezes o martelo é amplo e abstrato. Uma ilustração da resistência à era digital mediante tentativas de sobreviver se apoiando em uma tecnologia ultrapassada está presente no vídeo a seguir sobre aKodak:

 

De maneira semelhante, a Tower Records, maior rede de lojas de CDs dos Estados Unidos, resistiu por cinco anos ao lançamento do IPod e do ITunes. Fechou as portas em 2006, depois de haver entrado em recuperação judicial dois anos antes.

A empresa tentou enfrentar a pirataria e a concorrência a partir dos anos 90 com uma política de expansão agressiva e concessão de grandes descontos, sem sucesso. O vídeo a seguir mostra um anúncio feito por John Lennon em 1973 para divulgar seu álbum Mind Games, quando a rede estava em um bom momento.

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“Não somos máquinas.”

A frase, de uso comum, reflete há muito tempo anseios pela humanização de processos. Seu uso mais célebre se deu no discurso do final do filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1940). O conceito de desumanização do trabalho havia sido explorada por ele no filme Os Tempos Modernos (1936) e em obras diversas de outros autores há séculos.

Quando hoje se fala em automação de processos, rotinas repetitivas, exploração, telemarketing e trabalhos que rumam para a extinção a frase costuma ser lembrada. A noção geral é a de que valores como dignidade, respeito, valorização das pessoas e colaboração deveriam se sobrepor à ambição e ao egoísmo.

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Resumindo:

1) Suas atitudes mostram que você realmente sabe trabalhar em equipe?

2) Está bem demarcada a linha entre o que você é e aquilo que não quer ser?

 3) Qual tem sido sua postura diante de adversidades?

 4) Você tem feito aquilo que está ao seu alcance para definir seu futuro?

 5) Você tem se recusado a permitir que outros o façam se sentir inferior?

 6) Você vem usando as ferramentas mais adequadas a cada situação?

 7) Você tem colaborado para tornar o mundo um lugar mais humano?

 

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Como escrevi no início, conheci uma pessoa que abusava de provérbios, expressões idiomáticas e frases feitas. Descobri depois de certo tempo e por meio de outras pessoas que seus pais eram refugiados da Segunda Guerra que haviam chegado ao Brasil, sem conhecer nossa língua, nos anos 1940.

Eram pessoas humildes que se sentiam isoladas e desprotegidas por serem vistas como estranhas, depois de anos de perseguição e privações. Para poder se integrar melhor tentavam ouvir e repetir provérbios, chistes e expressões populares, como um recurso para mostrar que eram capazes de se sintonizar com a cultura e os costumes daqui. Sentiam-se mais aceitos dessa forma e insistiam com seus filhos para que fizessem o mesmo, o que acabou contribuindo para gerar neles o hábito de atrelar frases feitas a quase tudo.

Quando eu soube dos motivos, passei a ver coisas assim com mais humildade e maior disposição para aceitar ao invés de julgar. Não tive a oportunidade de conversar sobre isso com meu colega porque nossos destinos se separaram e ele não está mais entre nós. Mas eu aprendi uma lição.

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José Luís Neves é profissional da área de planejamento e finanças. Administrador  e economista, tem mestrado em Administração pela USP. Possui mais de 25 anos de experiência em empresas de consultoria e serviços como gestor de finanças, coordenando processos de controladoria, financeiro e contábil. Reside em São Paulo, SP.

Outros de seus artigos podem ser encontrados aqui.

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