O Pico de Itabirito e a tragédia de Mariana!

Quase que profético, o poema O Pico de Itabirito, escrito a 50 anos atrás já anunciava a exploração predatória na região das Minas Gerais, as palavras de Drummond, falam por si só:

O pico de Itabirito
Será moído e exportado
Mas ficará no infinito
Seu fantasma desolado.

Com tanto minério em roda
Podendo ser extraído,
A icominas se açoda
E nem sequer presta ouvido
Ao grave apelo da história
Que recortou nessa imagem
Um outro azul da memória
E um assombro da paisagem.

St. John del rey mining sai,
Mais hanna mais icominas
E sem dizer água-vai
Serram os serros de Minas,
Nobres cimos altaneiros
Que davam com sobriedade,
Aos de casa e forasteiros
Um curso de eternidade.

A tripla, agressiva empresa
Acha que tudo se exporta
E galas da natureza
São luzes de estrela morta.

Traição?  Ora, bulufas,
Ruínas, frases e ossos.
Algibeiras como estrofas
De ouro feito de destroços!

Mas eis que salta o conselho
Dos homens bons do Dphan,
No caso mete o bedelho
E na brisa da manhã
Acende um sol de esperança
Sobre a paisagem mineira.
(até onde a vista alcança,
Era dinamite e poeira.)

– o pico de Itabirito,
Este há de ser preservado
Com presença, não mito,
De um brilhante passado.

Conselho dixit.  E “tombando”
A rocha, mais rocha agora.
Demonstra-nos como, quando,
Com peito, uma lei vigora.
St. John, hanna e ico, murchos,
Detêm-se para pensar.

Queimaram-se os seus cartuchos
Ou resta um jeitinho no ar?
– vamos chorar nossas mágoas
E, reforçando o lamento,
Arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!

Tudo exportar bem depressa,
Suando as rotas camisas.
Ficam buracos?  Ora essa,
O que vale são divisas
Que tapem outros “buracos”
Do tesouro nacional,
Deixando em redor os cacos
De um país colonial.

Escorre o tempo. E à cantiga
Dessa viola afinada,
Já ninguém mais lembra a antiga
Voz do conselho, nem nada.

E vem de cima um despacho
Autorizando: derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
Como, ao vento, uma embaúba!

E o pico de Itabirito
Será moído, exportado.
Só quedará no infinito
Seu fantasma desolado.

Carlos Drummond de Andrade – 1965

Esse é mais um dos motivos para refletirmos o valor de nosso voto e de nosso posicionamento como sociedade e nação!

 

Boa semana a todos!Itabirito

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